Segunda-Feira, 09 de junho de 2014

“Tá mais do que na cara da sociedade que a moda 60’s está de volta. O shift dress, os brincos gigantes, as formas geométricas, a make com olhos super marcados…mas eu estava olhando e olhando de novo alguns desfiles, campanhas e editoriais em revistas e percebi que a ‘referência’ era muito mais específica do que a gente pensa.  Lembrei das minhas aulas  de história da moda na faculdade…e pimba! André Courrèges me veio à cabeça.” (1)  O revivalismo courrègiano, que marcou 2013, e que, segundo os comentaristas de moda e de decoração, deverá permanecer vigente até o verão do hemisfério norte de 2014, motivou Perez & Prado a promover esta exposição para reconstituir o estilo do gêneo francês que, durante as décadas de 60 e 70 do século passado, revolucionou quase todas as manifestações da criatividade humana, da arquitetura à moda, influenciando a arte, a decoração e o mobiliário.

André Courrèges  nasceu em 1923 em Pau,  na Aquitânia, região dos Pirenéus franceses, próxima à fronteira com a Espanha, cuja cultura muito o influenciou. Engenheiro civil, interessou-se inicialmente por arquitetura e design, atividades que marcariam, para sempre, sua carreira. Em 1945, transferiu-se para Paris, onde começou a trabalhar com moda.  Foi, no entanto,  a partir de 1949, quando conheceu o “arquiteto da costura”, o espanhol Cristóbal Balenciaga, com quem colaborou por 11 anos, que Courrèges transformou-se em um dos mais famosos e polêmicos estilistas franceses, o que lhe permitiu abrir sua Maison, em 1961. “A Revolução Courrèges” ocorreu, no entanto, na primavera européia de 1964 (no Brasil, onde o período foi politicamente conturbado, o movimento teve inicialmente pouca repercussão), quando o “Grande Constureiro”, título conferido a poucos artesãos da haute couture, apresentou uma coleção branca, de temática futurista, denominada “Space Age”.

Nitidamente inspirada na arquitetura minimalista e de linhas puras, a “Revolução Courrèges” revelou, ademais, a expressão de um visionário, que a ambientou em cenas de ficção científica, viagens espaciais (a Humanidade conquistaria a Lua em 1969), adaptando a tecnologia da época à sua criatividade artística. Assim, novos materiais foram utilizados de forma inusitada, tais como o metal, o vidro, o espelho, o plástico (na confecção de roupas, por exemplo), o PVC e os tecidos sintéticos.  A cor predileta era o branco (a “cor da luz”, segundo Courrèges), em fortes contrastes com o negro, o vermelho, o amarelo, o azul-marinho, naturais, em tons metalizados ou fluorescentes. Enfim, as silhuetas angulosas refletiam estruturas geométricas sólidas construídas por quadrados, trapézios, retângulos, etc. Tais parâmetros foram adotados nas artes (pintura e escultura), na arquitetura, no mobiliário, na decoração e nas passarelas

André Courrèges esteve pela primeira vez no Brasil (“venho…encontrar o sol, o mar e a cor…”), em 1972, a fim de apresentar um desfile beneficente. Em 1982, inaugurou uma loja da sua griffe  que, infelizmente, foi descontinuada pelos entraves burocráticos que nos são familiares e eram, então, mais coibitivos do que hoje. Em sua última visita, em 1989, lançou o projeto de um edifício, o La Tour Lumière de Courrèges (Rua Tuim, 1014, Moema, São Paulo, SP), com fachada de aço inoxidável, vidros azuis e estruturas de alumínio (qualquer semelhança com prédios de Brasília não é mera coincidência). Seu contato com o Brasil foi, portanto, limitado, o que nos dificultou encontrar peças autênticas de Courrèges e nos levou a garimpar móveis, objetos de arte e decorativos produzidos por artistas e artesãos que se inspiraram em seus padrões estéticos. Para nossa surpresa, descobrimos que sua influência foi mais marcante do que pensávamos.

(1) Vasconcelos, Nuta; André Courrèges e tendência em pleno 2013; www.girlswithstyle.com.br

Ney Prado
Curador de Arte e Antiguidades