Mesmo para os que gostam de Brasília, ausentar-se, de tempos em tempos, é uma necessidade que se impõe, tendo em vista o isolamento cultural da capital.  Passei, assim, o feriado prolongado e o fim de semana em São Paulo, onde logrei arrematar, em concorrido leilão, quatro das dez melhores peças de magnífica coleção de vidros iridescentes  “Loetz”* que serão oferecidas, em breve, aos colecionadores que nos prestigiam.

Aproveitei, ainda, a estada em Sampa para visitar o Museu de Arte de São Paulo Assis Cheteaubriand (MASP) onde, além de rever obras preferidas do acervo (fotos 1 – “Tentação de Santo Antão” de Hieronymus Bosch; 2 – “Paisagem com Jibóia” de Frans Post [um prêmio para quem identificar a jibóia] e 3 – “Moema” de Victor Meirelles),  percorri duas excelentes exposições:  “Em Vermelho”, obras (fotos 4, 5 e 6) de Henri de Toulouse-Lautrec (1864 – 1901) e “Erótica” de Pedro Correia de Araújo  (Paris, 1874 – Rio de Janeiro, 1955).

Toulouse-Lautrec dispensa apresentações.  Quanto a Pedro Correia de Araújo, trata-se de artista plástico de família pernambucana nascido em Paris que retornou definitivamente ao Brasil em 1929, onde passa a conviver com Portinari, Di Cavalcanti e  Ismael Nery.   Suas obras (fotos 7 – Jongo, sua mais famosa produção, e 8 – Zélia – Mulher com periquito) encontram-se em encruzilhadas temporais, geográficas e de estilos, ou seja, entre os séculos XIX e XX, entre a França e o Brasil e entre o acadêmico e o modernism, o que dificulta sua inserção na Arte Brasileira e é possivelmente responsável por sua imerecida marginalização. Surpreendeu-me, ademais, a semelhança dos seus desenhos de nus femininos com os de Alexande Herculano (foto 9), recentemente adquiridos por Perez & Prado (v. nosso site www.perezeprado.com.br, “Tempo de Bambas, o Carnaval da Praça Onze”).

A título de curiosidade,  Pedro Correia de Araújo foi casado com a dinamarquesa Lili Ebba Henriette, minha saudosa amiga, proprietária do Pouso do Chico Rei, em Ouro Preto, cujas portas foram decoradas por Guignard e onde sempre me hospedei e me hospedo naquela cidade.  O filho do casal, o escultor Pedro Correia é o autor do belo lustre “Revoada”, em prata, ferro e cristal, do saguão dos salões nobres do Palácio Itamaraty, em Brasília (foto 10).

Para encerrar com chave de ouro, jantei no “Mani”, a meu ver, o melhor restaurante de São Paulo, quiçá do Brasil.  Cardápio:  Bombom de foie gras com goiabada e capa de vinho do Porto, Ovo do Mani (cozido a 65º C durante uma hora e meia, sobre espuma de pupunha), Moqueca de lagostim com terrine de arroz, migalhas do Mani, pirão e azeite de pimenta e Mochi de bacuri com sorvete de matchá, pipoca de arroz selvagem e menta, tudo regado a um excelente Merlot, reserva de família.

Ney Prado, curador de artes e antiguidades

*Johann Loetz,  mestre vidreiro austríaco cuja viúva fundou, em 1844, uma das mais famosas fábricas de vidro da Europa, a “Johann Loetz Witwe” (“witwe”, viúva em alemão).