Salões de Arte e Antiguidades

Em 1816, ou seja, oito anos após a chegada ao Brasil da família real portuguesa, a Missão Artística Francesa, da qual participavam os pintores Jean-Baptiste Debret (Paris, 1768 – Paris, 1848) e Nicolas-Antoine Taunay (Paris, 1755 – Paris, 1830), aportou no Rio de Janeiro, a convite de D. João VI.   A missão, que deveria revolucionar as Belas-Artes, dominada então pela tradição barroca, da qual Ouro Preto foi e continua sendo um dos principais monumentos, e implantar um sistema de formação acadêmica que fortalecesse o Neoclassicismo, enfrentou, no entanto, obstáculos financeiros e políticos. Assim, no campo das artes plásticas, ademais das valiosas obras de seus membros, que documentaram, em óleos sobre tela, aquarelas, gravuras e desenhos,  os primórdios do recém-criado reino do Brasil (1815),  a missão só produziu seu primeiro fruto significativo em 1826, ou seja, a fundação da Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

A Academia Imperial foi responsável pela realização das primeiras exposições de arte no Brasil, em 1929 e 1930, respectivamente, organizadas por Jean-Baptiste Debret.  Eram restritas a professores e alunos da instituição e foram descontinuadas quando o pintor retornou à Europa, em 1831.  Após um lapso de dez anos, ou seja, somente em 1840, Félix Émile Taunay (Montmorency, 1775 – Rio de Janeiro, 1881), filho de Nicolas-Antoine, criou as Exposições Gerais de Belas Artes que sobreviveram à proclamação da república (1889).  Sob o novo regime, a Academia Imperial transformou-se, no entanto, em Escola Nacional de Belas Artes. Outra mudança, ou seja, a metropolização da capital paulista, passou a ameaçar o protagonismo do Rio de Janeiro no campo das Artes, sobretudo, quando da realização, de 11 a 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, da Semana de Arte Moderna, marco polêmico e decisivo do início do Modernismo no Brasil, que assumiu forte viés nacionalista, apesar de influenciado pelas vanguardas europeias, como o Cubismo e o Futurismo.

As Exposições Gerais, cada vez mais esvaziadas pela repercussão da Semana de Arte Moderna, foram mantidas, no entanto, até 1934, quando passaram a denominar-se Salões Nacionais de Belas Artes.  Por sua vez, os Salões, após a sedimentação do Modernismo, foram divididos, em 1940, em duas seções, o de Belas Artes e o de Arte Moderna.  Da seção de Arte Moderna surgiu, em 1951, o Salão Nacional de Arte Moderna, cuja última edição realizou-se em 1976 e que, em seus melhores momentos, reuniu os principais representantes da vanguarda artística brasileira, nomes que, ainda hoje, são referenciais nas Artes Plásticas nacionais.  Dois anos depois, ambas as mostras forma reunificadas no Salão Nacional de Artes Plásticas que, sob a égide da FUNARTE, passou a expor, democraticamente, as tendências plurais da arte brasileira, sem distinção de estilo ou origem.  Finalmente, com a extinção do Salão Nacional, em 1990, a Bienal de São Paulo, criada em 1951, passou a ser o principal evento artístico do país, enquanto a mostra carioca de escopo nacional diluiu-se em iniciativas estaduais e municipais.

Da cronologia acima exposta, depreende-se que a evolução das Artes Plásticas no Brasil é lenta, enquanto a compreensão, aceitação e assimilação de novas propostas exigem lapsos prolongados, em flagrante descompasso com polos culturais mais adiantados.  Emblemática, por exemplo, foi a postura de Monteiro Lobato (Taubaté, 1882 – São Paulo, 1948) que, como crítico de arte na São Paulo do início do século XX, opunha-se radicalmente ao Impressionismo e ao Expressionismo, em defesa de um Realismo acadêmico ultrapassado (vd. “Um Jeca nos Vernissages”, de Tadeu Chiarelli, e a acerba crítica de Lobato, “Paranóia ou Mistificação”, à exposição de 1917 da pintora Anita Malfatti [São Paulo, 1889 – 1964], uma das principais representantes do Expressionismo brasileiro).  Por outro lado, atreladas a tendências exógenas,  que, conforme foi dito, eram incorporadas extemporaneamente, as Artes Plásticas no Brasil, ao contrário do que ocorreu no campo da Música, não produziram movimentos autóctones, com exceção de manifestações regionais, inspiradas no rico folclore brasileiro ou nos valores e símbolos de nossas religiões peculiares.

No que diz respeito aos Salões de Arte e Antiguidades, a simbiose ocorreu em 1993, ao realizar-se a primeira edição do evento no Jockey Club de São Paulo, por iniciativa da arquiteta Ariane Elkins Juliani, que, posteriormente, se associou à decoradora de interiores Vera Chaccur Chadad.  O segundo Salão foi montado na magnífica residência do casal de colecionadores de Arte Ivani e Jorge Yunes, na Rua Venezuela, nos Jardins, transferindo-se, posteriormente para o Clube Paineiras, até consolidar-se, em 1998, no Salão Marc Chagal do Clube A Hebráica.  Ao completar 20 anos, em 2013, o Salão ocupava uma área de 3.500 m2, reunia mais de 60 expositores nacionais e internacionais (alcançou 90, em edições anteriores) e atraía um público superior a 18.000 visitantes. Em 2015, com o afastamento de Juliani e sob a curadoria de Vera Chadad, o Salão voltou às suas origens, ou seja, ao Jockey Club de São Paulo, sem prejuízo de continuar sendo o mais importante espaço reservado à comercialização de arte e antiguidades da América do Sul, além de salientar temas de interesse das Artes Plásticas e Decorativas, lançar novas tendências e homenagear artistas influentes, dedicando-lhes Salas Especiais.

Ney Prado, curador de arte e antiguidades