Os lustres, ou seja, candelabros de vários braços que, suspensos no teto, iluminam a totalidade de um ambiente, surgiram, na forma pela qual os conhecemos, no final do século XVII, antes, portanto, da invenção de Thomas Edison, em 1879, da primeira lâmpada incandescente comercializável, considerada um dos mais importante passos civilizatórios da humanidade, o triunfo do homem sobre as trevas.

Utilizados inicialmente como suporte para velas, fonte de luz que evoluiu do sebo de animais e da cera de abelhas à parafina, os lustres eram peças feitas por encomenda, majestosas, de metal ou de quartzo, que iluminavam as imensas mesas de jantar da nobreza. Tornou-se mais acessível, a partir de 1676, quando o mestre vidreiro inglês George Ravenscroft, ao adicionar óxido de chumbo ao vidro, criou um material cristalino, semelhante ao quartzo, de alta refração e mais fácil de manipular.

O novo material foi pioneiramente utilizado para a produção de lustres em Murano, de onde procede o exemplar que Perez & Prado ora oferece, como digno herdeiro dos primeiros lá fabricados.  Translúcido, com hastes incolores e demais elementos, como flores, bobeches e pinha de remate, em suaves matizes de azul, rosa e amarelo, a peça apresenta dimensões compatíveis com ambientes modernos, ou seja, 100 X 61 cm. Datado da década de 1940, foi possivelmente criado, por sua leveza e demais características, pela famosa vidraria Barovier & Toso, fundada em 1936 e cujo ramo Barovier dedica-se à fabricação de vidro desde 1295, portanto, há mais de 700 anos.

Cumpre salientar, finalmente, que, ao contrário do que muitos pensam, Murano não é marca de vidros, mas um arquipélago de sete ilhas, unidas por pontes, a 1 km de Veneza, no Mar Adriático.  Em 1291, o prefeito da cidade obrigou os mestres vidreiros locais, já famosos em toda a Europa, a se mudarem para as ilhas, a fim de evitar incêndios no que era então um centro urbano construído majoritariamente de prédios de madeira, bem como isolá-los e assim proteger os segredos da arte vidreira.  Importantes e antigos nomes de mestres vidreiros subsistem no local, como Seguso, Venini, Barovier & Toso, Cenedese, Mazzegga etc.

P.S.  Ao publicar no Grupo Casarões Antigos, Histórias e Relíquias do Fecebook sobre os Reais Gabinetes Portugueses de Leitura no Brasil, fui positivamente supreeendido pelo teto do Salão Camoniano da instituição de Santos, SP, que ostenta seis belíssimos lustres de Murano.

Ney Prado, curador de arte e antiguidades

Salão Camoniano do Centro Português de Santos, SP