Quando cheguei a Brasília, em 1970, a fim de preparar, juntamente com colegas do cerimonial do Ministério das Relações Exteriores, a inauguração do Palácio Itamaraty (21/04/1970), encontrei nas repartições públicas e até nos apartamentos de trânsito, que abrigavam provisoriamente funcionários vindos de todas as partes do país, móveis elegantes e sóbrios, de linhas retas, cujos pés eram de jacarandá maciço e os corpos de conglomerado chapeado por pequenos retângulos intercalados de folha de jacarandá.  O efeito lembrava uma parede de tijolos ou um assoalho taqueado, razão pela qual as peças foram batizadas de “tijolinhos” ou “taquinhos”.

Mesas, escrivaninhas, aparadores, estantes, camas de “tijolinhos” ou “taquinhos”, que se transformaram em ícones do mobiliário brasileiro, são criações do arquiteto polonês, naturalizado brasileiro, Jorge Zalszupin (Varsóvia, 1922) que, ainda jovem, foi influenciado pelo arquiteto e designer francês Le Corbusier (1887-1965). Segundo Zalszupin, seu primeiro contato com Le Corbusier foi através da vitrine de uma livraria da sua cidade natal, na qual repousava um livro sobre a obra do mestre.  Entrou, folheou-o e não descansou enquanto, apesar das dificuldades decorrentes da II Guerra Mundial, não se formou em arquitetura em 1945, na Romênia.  Desiludido com o clima de pós-guerra de uma Varsóvia inteiramente destruída, mudou-se para o Brasil em 1949, após breve passagem pela França, radicando-se, inicialmente, no Rio de Janeiro e, em seguida,  em São Paulo.

Após planejar e executar móveis, através de procedimentos artesanais, para clientes especiais, Zalszupin associou-se a um grupo de engenheiros, arquitetos, designers e marceneiros e fundou a L’Atelier que produziu sua primeira peça, a poltrona “Dinamarquesa”, em 1959, e foi pioneira na fabricação em série, fator determinante para o barateamento e disseminação do produto.  Modernidade, leveza, sensualidade, funcionalidade e acessibilidade são algumas das qualidades que permitiram aos “tijolinhos” ou “taquinhos” conviver harmonicamente com peças de Oscar Niemeyer, Burle Marx e Sérgio Rodrigues, complementando, sobretudo, as linhas arrojadas da então recém-construída capital do Brasil. Foram identificados como os móveis da era JK.

A partir da década de 1990, os móveis da L’Atelier passaram a ser encontrados, a maioria em péssimo estado de conservação, em brechós do Plano Piloto e de cidades satélites de Brasília.  Eram os órgãos públicos renovando o mobiliário.  Desde então, Perez & Prado passaram a colecionar tais peças, dedicando-se à tarefa nada fácil de restaurá-las e revitalizá-las.  Do acervo, temos a satisfação de apresentar três importantes exemplares:   mesa de sala de jantar (ex de reunião), de 350 X 130 cm;  aparador/estante de módulos de 50 X 50 cm, 50 X 37 cm e 50 X 100 cm (porta-ternos), que podem ser “réassemblés”, inclusive, em combinações mais leves (vd. fotos com modulações alternativas), e uma escrivaninha de 178 X 80 X 71 cm (vd. fotos com detalhes).

Atualmente, os móveis da L’Atelier não podem mais ser descartados pelas repartições públicas, que ainda os têm, e equipes foram treinadas e formadas para restaurá-los e reintroduzi-los, inclusive, nos gabinetes da presidência da república.

Ney Prado, curador de arte e antiguidades

 

Bibliografia

Santos, Maria Cecília Loschiavo dos;  Jorge zalszpin – Design Moderno no Brasil;  Olhares Editora, 1969.