Acostumados aos nossos numerosos e excelentes pintores primitivos, ingênuos ou naif, desconhecemos, via de regra, as manifestações artísticas populares de outros povos, inclusive e quase sempre, as praticadas no Brasil, como é o caso da arte indígena e quilombola. Contudo, a arte primitiva apresenta expoentes em todos os continentes, com especial destaque, na Europa, para Henri-Julien-Félix Rousseau (Laval, França, 1844 – Paris, 1910), considerado o fundador e ícone da estética ingênua, o primeiro a receber o epíteto de naif; na América do Norte, para Anna Mary Robertson (Greenwich, Nova York, 1860 – Hoosick Falls, Nova York, 1961), conhecida como Vovó Moses, além dos primitivos haitianos, da arte naturalista, abstrata e mística dos aborígenes australianos (1) e dos anônimos pintores asiáticos que, geralmente, tendem para um erotismo anafrodisíaco, para citar apenas as principais correntes mundiais do estilo naif.

Admirada por Pablo Picasso, Guillaume Apollinaire, Robert Delaunay, Alfred Jarry e outros artistas e intelectuais, a arte primitiva passa a ser  reconhecida a partir do início do século XX, influencia o surrealismo de Salvador Dali e apresenta as seguintes características comuns, em que pese as diferenciações culturais: ausência de técnicas acadêmicas, o que a libera de convenções; déficit de qualidade formal (descompromisso com a perspectiva, com a mistura e combinação experimentais e adequadas de cores, presença de traços figurativos e bidimensionais); simplicidade e espontaneidade na manifestação de experiências pessoais do artista, inseridas na sua própria cultura; liberdade estética, sem sofisticação ou requinte sistemático; infantilidade.

O par de pinturas primitivas europeias, adquiridas em Londres, que Perez & Prado têm o prazer de oferecer a amigos e clientes, são representativas do gênero no Velho Continente.  Óleos sobre tela, medem 32 X 41 cm e estão assinadas respectivamente por Deros e Dervy, o que pressupõe terem sido produzidas por artistas (Discípulos do mesmo mestre?) que utilizaram estilos idênticos.  Pela etimologia dos nomes, a origem deve ser britânica, do século XIX.  Trata-se, enfim, de singelas paisagens campestres com personagens que, apesar de apresentarem as características acima mencionadas, sugerem, a exemplo de outras obras naif europeias, o anseio dos autores de emular os pintores acadêmicos.  Vislumbra-se, assim, uma certa sofisticação, com marcantes vestígios de perspectiva, bem como de seleção e distribuição ordenada de cores.  Os traços de ingenuidade e inocência estão, no entanto, nitidamente presentes.  São os “caminhos de sonhar” dos “aborígenes” europeus.

Ney Prado, curador de arte e antiguidades

(1)  Recomendo a leitura do excelente livro de Bruce Chatwin, “Songlines”, no qual procura desvendar o significado “dos caminhos de sonhar” dos ancentrais dos aborígenes australianos, que se refletem em sua arte e contam, atualmente, com galerias especializadas nos Estados Unidos da América e na Europa.

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