Quando a escolha recai sobre decorar com design e antiguidades, torna-se imprescindível traduzir (uma vez que se trata de vocábulo estrangeiro) e definir, clara e precisamente, o que se entende por design. A meu ver, a melhor tradução do termo para o português é “concepção”, de acordo com o dicionário Caldas Aulette que assim o define, sucinta, mas, infelizmente, de forma incompleta: “1. concepção física, formal e funcional de um produto; 2. o produto resultante dessa concepção”.

Nesse sentido, objetos de arte e antiguidades, que, além de físicos e formais, têm funções, seriam design. Contudo, ao segundo termo da definição faltou uma simples restrição: “2. o produto resultante, ‘EM ESCALA INDUSTRIAL’, dessa concepção”. O que não impede, no entanto, que determinadas peças de design, ainda que produzidas em série, impactem pela criatividade e qualidade e se transformem em produtos raros e excepcionais, apesar de não serem exclusivos, característica inerente aos objetos de arte e às antiguidades.

Considero, assim, que o design surgiu na Alemanha, no período Biedermeier (1815 – 1848), quando os ebanistas, ao utilizarem madeiras de qualidade inferior (equivalentes ao aglomerado ou MDF atuais), recobertas por lâminas de madeiras de lei, reduziram os custos do mobiliário de estilo. O processo permitiu a produção em série de móveis que, accessíveis, até então, somente à nobreza. invadiram os lares burgueses da época, assim como o design tornou-se presente, hoje, na maioria das casas da classe média.

Em 1860, a tendência tecnicizou-se, quando o austríaco Michael Thonet inventou uma máquina de curvar madeira e passou a produzir móveis em escala industrial, sobretudo cadeiras, que exportou para todos os continentes. No Brasil, o melhor exemplo de design são os móveis “tijolinho” ou “taquinho”, de aglomerado folheado de lâminas retangulares de jacarandá, criados e produzidos, em São Paulo, pelo arquiteto polonês Jorge Zalszupin, de 1950 a 1980, sob a marca L’Atelier. Mobiliaram Brasília em seus primórdios e já podem ser considerados raridades.

Desta breve introdução, surge a primeira indagação, com respeito à sinergia entre design e antiguidades. Em se tratando de artigos produzidos em escala industrial, como se explica que o preço do design seja superior ao de exclusivas antiguidades? A resposta parece estar em uma conhecida lei de mercado, ou seja, na maior demanda por produtos de design, uma vez que constituem a matéria-prima da maioria dos arquitetos e decoradores, que alimentam, assim, um segmento próspero, mas não necessariamente criativo e inovador.

A segunda dúvida, consequência da anterior, refere-se à preferência dos profissionais do ramo pelo design, em detrimento, senão de objetos de arte, pelo menos das antiguidades. Indagados, a resposta quase unânime, foi a de que é uma questão de modismo e comodismo. Ao binômio se deve o fato de que, ao frequentarmos uma centena de ambientes em Brasília, não sabemos se estamos na sala VIP de um Aerorporto Internacional, na suíte presidencial de um hotel 5 estrelas ou na antessala do consultório de famoso cirurgião plástico.

São espaços impessoais, equivocadamente denominados “clean”, dos quais, com raras exceções, as mostras de arquitetura e decoração são bons exemplos. Idealizadas para apresentar novos e revolucionários materiais e tendências, tais eventos transformaram-se, por inércia, em “um pouco de tudo da mesma coisa”*. A responsabilidade, vale mencionar, não é somente dos profissionais participantes, mas, sobretudo, da exclusividade que lhes é imposta, quanto à utilização de acabamentos e móveis de determinados patrocinadores, o que lhes tolhe a criatividade e lhes impede inovar.

Terceira questão: decorar com design, o que justificaria o comodismo acima mencionado, é mais fácil? Afinal, em Brasília, basta dirigir-se a shopping centers especializados e adquirir, por preços exorbitantes, o que está na vitrine. Diria, no entanto, que decorar com design é tão fácil e prosaico quanto decorar somente com antiguidades. Quanto à segunda opção, basta conhecer os estilos, saber onde garimpar as peças e projetar ambientes, do Luís XV ao Art-Déco, monótonos e repetitivos, a exemplo das decorações que utilizam apenas peças de design.

Chega-se, assim, à constatação de que difícil é trabalhar com o arrojado e o clássico, um desafio à criatividade e ao bom gosto. Com efeito, os arquitetos e decoradores que melhor promoveram a simbiose entre design e antiguidades são os que lograram imprimir estilo próprio, exclusivo, sofisticado, harmônico e confortável. E.g., menciono apenas três profissionais, cuja inspiração enfrentou galhardamente o desafio: a norte-americana Dorothy Draper (1889-1969) (1), o franco-chileno Juan Pablo Molyneux (2) e o ítalo-argentino, nascido no Marrocos, Alberto Pinto (1943-2012) (3).

Cumpre salientar, finalmente, que inúmeras residências da Capital, cujos responsáveis contaram ou não com a orientação de designers de interiores, preenchem os mais exigentes requisitos de harmonização entre o moderno e o antigo. A partir de maio, Perez & Prado, desde que autorizado pelos respectivos proprietários e observadas as indispensáveis medidas de segurança, pretende apresentar tais ambientes, na esperança de que sirvam de inspiração para a construção de uma estética e qualidade de vida melhores.

Ney Prado, curador de arte e antiguidades

1) a norte-americana Dorothy Draper (1889-1969) ou Sister Parish, considerada a “Dama do Décor Americano”, é uma anti-minimalista que utilizou, pioneiramente, a combinação do chintz com móveis de sua autoria e ingleses de época; foi responsável pela primeira decoração da Casa Branca, em Washington, e do Palácio Quitandinha, em Petrópolis, em estilo “Hollywood Regency”;

2) o franco-chileno Juan Pablo Molyneux, classicista e maximalista, acoplou elegante e sobriamente o design de sua autoria a móveis franceses dos Luíses ao Déco;

3) o ítalo-argentino Alberto Pinto (1943-2012), nascido no Marrocos, é conhecido como “o decorador da opulência”; orientalista, tive o prazer de conhecê-lo na Arábia Saudita, quando decorou as tendas reais armadas no Deserto da Arábia, espécie de “casas de campo”, onde os príncipes sauditas passavam os fins de semana.

*Expressão utilizada por renomado arquiteto que optou pelo anonimato.