Com o objetivo de resgatar valores artísticos nacionais, quase sempre injustamente esquecidos nas implacáveis dobras do tempo, e de proporcionar a amigos e clientes o melhor dos mercados de arte e antiguidades, Perez & Prado acaba de adquirir três portfólios de estudos (223 desenhos a grafite, lápis de cor, caneta e aquarela) de Alfredo Herculano.   A exemplo do que foi feito com as aquarelas realizadas em Paris, em 1930,  pelo arquiteto  Marcelo Roberto,  um dos introdutores  da Bauhaus no Brasil, e dos desenhos do norte-americano Grover Chapman, que serviram de base às ilustrações de sua autoria para “O Episódio de Canudos”, de Euclides da Cunha, com introdução de Luís Viana Filho (Editora Salamandra, 1978),  agora, é mãos à obra:  pesquisar, classificar, restaurar e expor as obras de Alfredo Herculano.

Não foi possível determinar os locais e datas de nascimento e morte do artista.  Tudo leva a crer que é carioca da gema, pelo menos de coração, e que participou ativamente da boemia do Rio de Janeiro da sua época.  Pintor, escultor e desenhista, sabe-se que frequentou a Escola Nacional de Belas Artes, onde estudou pintura e desenho com Rodolfo Chambelland e Marques Júnior e escultura com Antonino Matos, tendo participado, em 1928, da Exposição Geral de Belas Artes (1), bem como das duas edições seguintes da mostra, em 1929 e 1930.  Em 1931, expôs no Salão Revolucionário e, em 1983, Carlos Didier  (Rio de Janeiro, 1954) (2) publicou “Tempo de Bambas. O Carnaval da Praça Onze, Segundo o Traço de Alfredo Herculano” (Rio Arte), cujas ilustrações certamente se basearam em muitos dos estudos recém-adquiridos. Aparentemente, sua última participação no movimento artístico carioca foi em 1984, no Salão de 31 (3).

Alfredo Herculano conviveu com os compositores Orestes Barbosa, Lamartine Babo, Ismael Silva, Noel Rosa e foi amigo de Antônio Nássara (autor da marchinha “Alá-lá-ô”, de 1941).  Em 1938, um ano após a morte prematura, aos 26 anos,  de Noel Rosa, Herculano, instado por Lamartine Babo e Nássara, com o apoio do jornal “A Noite”, esculpiu, sem qualquer contrapartida financeira, um marco em homenagem ao  “poeta da vila”, que foi inaugurado em 18 de Agosto de 1938,  na Praça Tobias Barreto, em Vila Isabel, com a inscrição: “A Noel Rosa, 1910 – 1937”.  Em 1946, após gerar polêmica entre os moradores do bairro, que não foram previamente avisados da transferência, o monumento foi trasladado para a Praça Sete, atual Barão de Drummond, onde se encontra presentemente.

Com traços e paleta nitidamente Art-Déco (1925-1940), a preocupação de Alfredo Herculano não se restringiu apenas à estética, da qual foi grande mestre,  mas, como um moderno Jean-Baptiste Debret, que registrou os costumes do Rio de Janeiro do século XIX, documentou, com técnica, sensibilidade e encantamento, os primórdios da principal festa popular brasileira, o Carnaval, cuja manifestação máxima ainda ocorre no Rio de Janeiro, apesar da válida concorrência de outras metrópoles brasileiras.  Os presentes exemplares da sua obra, que se estendem da década de 1920 à de 1970,  abrangem, no entanto, outras matérias ( e.g., uma excelente cena da sedução de Adão por Eva, no Éden) e podem ser  tematicamente classificados em:  I) Animais;  II) Baianas; III) Banhintas;  IV) Bateristas ;  V) Diversos;  VI) Festas;  VII) Máscaras;  VIII) Naturezas Mortas e Paisagens;  IX) Nus;  X) Passistas;  XI) Retratos femininos e XII) Retratos masculinos.

Ney do Prado Dieguez, Curador de Artes e Antiguidades

(1)  A Exposição Geral de Belas Artes, restrita a artistas de filiação acadêmica, passou a acolher nomes que despontavam no cenário artístico brasileiro, como Candido Portinari, Cícero Dias, Ismael Nery, Antônio Gomide, Aldo Bonadei, Orlando Teruz, Alberto da Veiga Guignard, entre outros, ao lado dos quais expôs Alfredo Herculano.

(2)  Engenheiro, musicólogo, violinista, compositor e historiador da música popular brasileira, foi biógrafo de Noel Rosa e Orestes Barbosa.

(3). O Salão de 1931, também denominado Salão Revolucionário ou Salão Moderno, é considerado, por muitos, evento tão ou mais importante que a Semana de 1922. Ocorreu sob a guarida de Lúcio Costa.